Melhor que a cópia – A inovação incremental e os imitadores

Sabe aquelas pessoas que nascem com o dom? Nunca tive dom pra esporte, artes, matemática, enfim, eu nasci desprovido de dons, que para mim, nada mais são que aptidões naturais para determinadas atividades ou áreas do conhecimento.

Minha família, com um histórico artístico de descendência de circo, era extremamente talentosa: todos cantavam muito bem e tocavam vários instrumentos, e no meio deles, destes exímios músicos, tinha eu, um adolescente completamente desafinado.  Muita gente (incluindo minha família, na época) acredita que existem pessoas incapazes de aprender a cantar ou de aprender qualquer outra coisa, mas eu nunca pensei assim.

Depois de um tempo tentando ser um pouco mais afinado, eu descobri que se eu tentasse copiar a forma de cantar de alguns artistas, eu conseguia melhorar consideravelmente. Descobri ao ouvir Steve Wonder, Ed Motta, Aretha Franklin e grandes músicos do jazz, que ao tentar imitar algo extremamente difícil, eu poderia me aperfeiçoar.

Tudo é um Remix

Você já deve ter ouvido músicas que são parecidas e provavelmente, uma bebeu da fonte da outra. Criação é sempre precedida de referência, ou seja: nada se cria do zero, é tudo uma questão de referências! Um documentário muito interessante foi feito há alguns anos atrás, com o nome deste subtítulo, e eu sugiro fortemente que você o veja:

O ser humano copia para evoluir, e nos negócios é mais ou menos a mesma coisa.

Desde que nascemos, nós aprendemos por meio da cópia: copiamos comportamentos de nossos pais, copiamos a forma de andar, falar, comer, sentar; Temos neurônios espelho que servem para este tipo de coisa; fomos dotados de uma capacidade única no reino animal: copiar até a perfeição. Você já deve ter visto e ouvido comediantes que imitam perfeitamente outras pessoas, ou até mesmo você, consegue imitar trejeitos, formas de falar de alguém, sons de animais, etc. Somos máquinas de copiar. Copiar, nada mais é que instintivo, mas e quando o assunto são negócios?

A mesma lógica da minha história pessoal, na qual eu copiei para melhorar, é a lógica da engenharia reversa dos chineses que pegaram os primeiros smartphones da Apple e lançaram um produto semelhante, só que com uma antena de tv acoplada, e venderam milhões de unidades à um preço bem mais baixo que a Apple.

No livro “Copycats – Melhor que o original“, Oded Shenkar, autor do livro publicado em 2010, descreve várias situações nas quais a cópia saiu melhor que o original. Basicamente, o livro apresenta um panorama no qual as empresas inteligentes replicam e superam as melhores ideias. Você deve lembrar de vários casos no Vale do Silício, ou talvez no seu próprio mercado, quando um concorrente (ou você mesmo) copiou uma promoção, produto ou serviço, mas deu um upgrade, atraindo mais clientes.

Shenkar divide os empreendedores em 2 categorias: os inovadores e os construtores, estes últimos são os que fazem as cópias. Carinhosamente ele os apelidou de imovadores (mistura de imitadores com inovadores). Ele explica que existem muitos benefícios em ser um “imovador”:

“Os imitadores não tem chance de serem complacentes, problema significativo para inovadores e pioneiros que são levados pelo sucesso ao ponto de subestimar os perigos que espreitam no retrovisor. Os imitadores, por outro lado, que vem de trás, tendem a ser paranóicos com outros que possam seguir seus passos e estão mais bem preparados para repelir o ataque”

Aqui entramos em um terreno delicado, mas que deve ser percorrido: a questão da propriedade intelectual. Independente de seu posicionamento “pró ou contra” leis rígidas de registro de propriedade intelectual, há de se perceber o avanço que ocorre em tecnologias e produtos, quando existe uma concorrência copiando e aperfeiçoando os produtos uns dos outros. Isto acontece relativamente bastante no mercado de smartphones, computadores e eletrônicos em geral.

Mas, e cadê os direitos de quem inventou?

Existe uma grande quantidade de pessoas que acredita que o registro deve ser feito e fiscalizado, cabendo multas e prisões no caso de plágio ou cópia descarada, mas ao mesmo tempo, vários destes acreditam que existem categorias de coisas que deveriam ficar fora destas leis, como é o caso dos medicamentos no Brasil: O governo criou “domínios não patenteados” para medicamentos essenciais, que trouxe competição às multinacionais com a entrada de medicamentos genéricos. Não quero entrar a fundo neste tópico, mas o fato é que a cópia ajuda na melhoria de processos.

O movimento Open Source veio para ser uma espécie de precursor de um novo tempo – que parece nunca chegar –  no qual não existe propriedade intelectual, mas sim, capacidade de execução, pois, citando os empreendedores por aí: “ideias não valem nada, o que vale é a capacidade de execução”. Quando se trata de cópia a coisa é diferente, sabemos disso, porém, e se (E SE COM LETRA MAIÚSCULA), ao invés de competir, houvesse colaboração onde a cópia fosse livre e não criminalizada?

No livro “A Economia dos desajustados”, a cópia é apresentada como ferramenta dos empreendedores desajustados.

Veja bem: meu intuito não é fazer apologia à cópia indiscriminada, à pirataria ou ao plágio, mas apenas mostrar que um espaço aberto de compartilhamento de ideias, na qual uma concorrência dê lugar à colaboração e à troca de informações entre agentes de inovação distintos, talvez possamos impulsionar um desenvolvimento muito mais rápido do que na lógica atual.

Eu, particularmente, espero que o mundo seja um lugar no qual não existam patentes de remédios ou tecnologias que fiquem à disposição de minorias, mas que ao mesmo tempo, os criadores sejam recompensados pelo que fizeram de forma justa. E você, o que acha deste tema tão polêmico?

SOBRE O AUTOR:
Dan Queirolo
é Futurista, empreendedor serial, especialista em criação de comunidades e coworkings. É apaixonado por inovação, pelo universo startup, e se diverte fazendo arte, cozinhando e subindo montanhas.

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